Minha Vida na Ponta dos Pés – Parte IV

“Dessa vez eu tinha caído de verdade… E não tinha sido em um palco no Ballet. Eu estava na prisão!”

Atenção: Texto para maiores de 18 anos!

Eu estava deitada numa das camas estilo beliche da cadeia, olhando para aquele teto sujo e rabiscado, e pensando apenas em uma coisa: abismo. Sim, eu queria encontrar um abismo e me jogar dele. Eu estava na prisão havia apenas 5 dias mas já parecia que fazia 5 anos. Estava fazendo o que jamais eu pensei que fosse fazer algum dia na minha vida, abaixando a minha cabeça para todos à minha volta. E eu precisei cair, ir ao fundo do poço, ser descoberta e humilhada em público, para assim, perceber que o que eu mais preciso é buscar incessantemente uma melhor versão de mim.

– Sarah, Sarah! Cadê você, minha filhinha? – Podia escutar a voz do meu pai da cela.
– Senhor, o senhor não pode entrar aí! – Respondeu uma policial.
– Senhora, é minha única filha! Preciso vê-la, saber o que aconteceu! – Implorou meu pai.
– Querido, vamos conversar com o detetive, e vamos tirá-la daqui. Calma! – Pude escutar a voz da minha mãe também.

Neste momento percebi como a voz da minha mãe era doce e como meu pai estava ofegante pois me amava. E todos esses anos, eu os julgava por não estarem ao meu lado, mas na verdade eles sempre estiveram, eles faziam de tudo por mim. Que ingrata eu fui… Mas eu sabia que eles iriam me tirar desse lugar e eu ia abraçá-los com todo amor do mundo, eu ia me desculpar, ia recompensar todos esses anos de crueldade. Sim, eu fui cruel com meus pais, com a Beth, com meus amigos e conhecidos que foram bons para mim. Eu precisava mudar. Eu vou mudar!

– Sim, Senhor Morgan. Mas o que de fato aconteceu? – Perguntou meu pai ao detetive.
– Senhor White, a sua filha está sendo acusada de duplo homicídio. Ela tinha um caso com John Smith, um empresário bem famoso daqui de Manhattan. Ele e sua esposa Beatriz viviam no subúrbio, mas ele mantinha um apartamento para sua filha há um ano atrás, que foi quando as mortes aconteceram.
– Mas o que a minha filha disse? Eu tenho certeza que ela não matou ninguém! – Disse meu pai chorando.
– Senhor White, a Sarah disse que a Sra. Smith chegou no local e os viu juntos. Ela viu a arma e como a Sra. Smith estava muito nervosa, ela tentou tirar da mão da esposa do Sr Smith, o que ocasionou o disparo da arma diretamente no peito dele. Além do mais, disse Sarah que ao ver seu marido caído, a Sra. Smith não resistiu e se matou.
– Então foi legítima defesa, Senhor Morgan! – Refutou meu pai.
– Senhor White, concordo. Mas a Sarah fugiu. Isso faz dela uma suspeita. Uma antiga colega dela, chamada Jasmine, estava no café em frente ao prédio e a viu saindo naquela noite, assim como as câmeras do Loft também registraram sua fuga. Isso complica demais a situação dela. – Respondeu o detetive.

Como pude ter sido tão tola, fútil e insensível? O que aconteceu comigo? Eu era a “menina doce da vovó” e olha no que me transformei. Nos meus maiores medos de infância. Eu me transformei em tudo que não gostaria em uma pessoa: ingrata, sem valores, perdida e vestindo um macacão laranja horroroso que me lembrava toda hora que dessa vez eu tinha caído de verdade… E não tinha sido em um palco no Ballet. Eu estava na prisão!

– Tudo bem, Senhor White. Então ela não irá a julgamento. Mas precisa retornar à Montana e cumprir trabalhos comunitários. Ela será réu primário de qualquer maneira, pois ela fugiu enquanto poderia ajudar em uma investigação. Mas conversei com os peritos e realmente há marcas de digitais da Sra Smith no revólver. E no apartamento achamos câmeras, pudemos ver, ela estava falando a verdade, ela não teve intenção de matá-los. Isso salvou sua filha, Senhor White! – Explicou o detetive.
– Muito obrigada, Sr Morgan! Muito obrigada! – Meus pais agradeceram chorando.

Quem diria que agora eu estaria aqui… Retornando para Montana graças aos meus pais que eu tanto reneguei e que deram tudo para me tirar da encrenca que me meti. Estou sem nada. Sem minhas roupas, minhas jóias, sem minha reputação. Estou olhando as nuvens pela janela do avião, e do outro lado vejo meus pais, aqueles que eu podia sempre ter contado e me recusei por pura imaturidade. Precisei querer me jogar em um abismo, precisei chegar ao fundo do poço, ser humilhada, para perceber quem eu realmente quero me tornar: sensível, verdadeira, humilde, íntegra, cordial e empata. Eu sei que parece estranho, ou talvez até hipócrita, uma pessoa tão baixa como eu fui todos esses anos, mas sim, eu quero mudar e vou começar do zero em Montana, de baixo, mas do zero e voar, dessa vez, com asas de anjo…

Já conseguia ver a bela paisagem de Montana daqui de cima… E aspirar todas as mudanças que quero começar em mim. Será que vou conseguir me tornar uma pessoa melhor em Great Falls?

Soneto de Sororidade

Mulher na Literatura – Camiseta da marca Poeme-se

Durante a infância que vivi,
se tivesse-me havido mais união,
ou até mesmo mais opinião,
Hoje reconheço o quanto sobrevivi.

Mas, de nem tudo me foi negado,
minha infância foi moldada de amor,
repleta de carinho, incentivo e calor,
E por isso aqui estou para deixar o meu legado.

Cresci com tanta falta de sororidade,
alienada à diversas questões,
nas quais precisei buscar aprender,

veracidades a respeito da diversidade;
Oh, que mudança! Lhe digo que ao aceitar sugestões,
De mim floresceu a mais bela cumplicidade.

(Carla Magalhães)





Minha Vida na Ponta dos Pés – Parte III

“Você fez sua escolha, agora aguente as consequências.”

Atenção: Texto para maiores de 18 anos!

– É aquela bailarina, Senhorita Jasmine? – Indagou um policial enquanto me apresentava.
– Sim, é ela mesma, Senhor Policial. Ela que eu vi saindo com malas no dia da morte do homem que o senhor perguntou! Eu estava do outro lado da rua e a reconheci pois estudamos juntas! – Respondeu uma menina que parecia que a conhecia de algum lugar.

Espera! Eu conheço ela! É a Jasmine! O que ela está fazendo na minha apresentação no New York City Ballet? Meu grande dia! Eu era a bailarina principal! E com um policial? Como essa vadia me encontrou? – Me questionei conforme dançava “Dance of the Willis”, de Adolphe Adam. Sim, era dia de Giselle. Eu precisava me concentrar…

# Um ano antes…

– Parabéns, Sarah! Você é divina dançando! – Disse meu professor da Escola de Ballet de NYC após minha primeira apresentação como bailarina oficial.
– Obrigada, Scott! – Corri para abraçar ele.

Scott era casado com Brígida, uma bailarina que ficou conhecida por todos pela sua atuação em Swan Lake nos anos 90. Bom, ela esteve no auge do sucesso com essas apresentações. Agora era a minha vez, minha e do Scott…
O que foi? O casamento deles já não andava bem há muito tempo. Eu só queria me divertir um pouquinho…

– Scott, você me acha melhor que a Brígida? – Perguntei para ele enquanto estávamos deitados na cama.

Ele ficou calado. Scott era um homem de 44 anos, que teve sua carreira toda fazendo par de Brígida. Eles tinham mais de 20 anos de carreira. Percebi que o silêncio dele foi uma resposta. Mas ele não se calou por tanto tempo…

– Sarah, que necessidade é essa de sempre se comparar e ouvir que é a melhor? – Scott me questionou e me fez congelar com essa reflexão.
– E…E…Eu não tenho necessidade de me comparar, e bom, eu sei que sou a melhor de todas bailarinas! – Respondi mas com insegurança.

Ele levantou. Se vestiu, e me disse:

– Eu e a Brígida construímos uma carreira e uma vida juntos há quase 30 anos. Você realmente quer se comparar à ela? Pense bem. Você precisa ser mais humilde. E por hoje chega. Se arrume e vai para seu alojamento. Estou cansado e vou para casa.

Eu saí de lá aos prantos, percebi como tudo me afetava. E o Scott não estava errado, eu sempre queria provar que era a melhor. Por que sempre perguntava da Brígida? Lembrei da Jasmine, do High School… Poderíamos ter crescido amigas e unidas, mas sempre fomos rivais porque eu não aceitava ser a segunda melhor. Nunca. E agora, estou entendendo que eu nunca serei A Melhor para o Scott.

Tive um ano incrível em Nova York depois do que aconteceu com o John e a sua esposa. Aquele casal maluco! Mas enfim, depois que fui aprovada na audição da Escola de Ballet daqui, toda minha vida começou a melhorar. Treinava de segunda a sexta. Quase não comia e quando comia, às vezes colocava para fora, até porque eu não podia engordar 100 gramas, né? Sempre fui muito “disciplinada” com isso. Mas quando morava em Montana, a Beth enchia o prato para mim, eu até comia, mas acho que ela sabia que eu vomitava tudo, pois sempre corria para o banheiro quando acabava a refeição. Um dia ela até me questionou, mas mandei ela cuidar da vida dela…
Às vezes tenho saudades de casa, mas a maioria não. Meus pais chegaram a me procurar, mas eu não quis mais contato. Eles disseram “Se é essa a sua escolha, nós respeitaremos, Sarah!”. Até o Phil me ligou! Como ele arrumou meu número eu não sei, não usava redes sociais com fotos minhas. Sim, eu não queria ser encontrada. Estava muito bem vivendo no meu mundo perfeito na cidade mais linda do mundo…

# De volta para o dia da apresentação no New York City Ballet…

Todos os espectadores se assustaram ao fim do primeiro ato, a apresentação teve que ser interrompida pois o auditório estava cheio de policiais. Foi muito estranho… Todos se levantaram após a informação da interrupção da apresentação. Fiquei assustada. O que será que tinha acontecido? Até que quando o auditório estava vazio e todo o elenco dispersado, um policial subiu no palco e veio diretamente em minha direção.

– Senhorita Sarah White? – Questionou o policial.
– Si… Si… Sim… O que está acontecendo? – Respondi gaguejando pois suspeitava que poderia ser algo sobre o John.
– Senhorita Sarah White. A Senhorita está presa pelos assassinatos do Sr. e Sra. Smith.
– Como assim? Eu não matei ninguém! – Respondi firmemente. – Eu tive um caso com o John sim mas a Sra Beatriz descobriu e nos encontrou juntos e ela se matou.
– Isso veremos na delegacia com o Detetive responsável. No momento a senhorita está presa!

Sabem aquela música da banda “The Verve, Bitter Sweet Symphony“? Pois imaginem ela em suas mentes agora. Querem saber o que aconteceu? Bom, eu saí de uma das mais importantes apresentações do New York City Ballet… De algemas diretamente para a cadeia. Vestida de bailarina com a minha sapatilha de ponta para um tênis preto e um macacão laranja no estilo Orange is The New Black. E só consigo lembrar da Jasmine gritando enquanto todos olhavam para mim na saída do espetáculo catastrófico: “Você fez sua escolha, agora aguente as consequências.”

Eu mereci ouvir aquilo. Jasmine não estava errada. Eu fui muito cruel com todos à minha volta. Eu só pensava em mim! E agora eu estou aqui, em uma ala feminina na Penitenciária de Nova York, sendo humilhada e desprezada por mulheres de baixo escalão. Tendo que lavar o banheiro com minhas próprias mãos e dormir com as baratas. Sofrendo com as diversas tentativas de me tocarem, com essas lambidas nojentas pelo meu corpo, escutando “Eu quero essa Patricinha para mim”. Será esse meu fim? O que será de mim agora?

O que eu mais quero no momento? Voltar para Montana e consertar todo mal que eu fiz...

Resenha #4 – Aladim | Aladdin

LIVRO: Aladim
AUTOR: Nova versão do Conto Clássico de “As Mil e Uma Noites”
EDITORA: Zahar
FORMATO: Físico
NOTA: ★★★★

Foto Autoral – Aladdin & Princesa Jasmine

Caros Leitores,

Essa não é só uma resenha, é na verdade toda minha perspectiva sobre esse Conto de As Mil e Uma Noites no qual sou apaixonada, talvez, desde que nasci. Aladdin da Disney é de 1992, coincidência ou não? Não sei, mas é o ano que eu nasci, é a princesa que me inspira desde que eu era criança. Nossa, como sou apaixonada por essa história e toda cultura presente nela!

Inclusive, eu tive aquela Lâmpada Mágica da marca Chamyto, que você esfregava na lateral e escutava: “Eu sou o Gênio da Lâmpada! Vamos brincar?” Quem lembra? Eu adorava!

Anos 90 – Promoção Chamyto

Ainda, em dezembro de 1996, quando eu tinha apenas 4 anos, comemorei meu aniversário vestida de Princesa Jasmine. Por que? Porque era o meu desenho preferido! Aladdin e toda aquela cultura árabe que permanece em mim até os dias de hoje! E olha, eu nunca vou esquecer desse dia por mais novinha que eu fosse na época! Na verdade, lembro mais pelas fotos, mas foi tão marcante que eu lembro sim de muitas partes, como a decoração e da minha roupa linda! ❤️

“Os momentos especiais de hoje são as memórias de amanhã.” 

Meu niversário de quatro anos – Tema Aladdin – Eu e minha linda Mãe

Já perdi o foco da resenha! rs Estava tão animada para trazer essa minha conexão com a história de Aladdin que diferente de quando eu tinha apenas quatro anos, hoje eu vejo sob uma ótica muito mais madura.

Mas vamos à Resenha do Clássico Zahar, que super indico para quem quer uma outra realidade do Conto.

Primeiro… Esquece o Aladdin da Disney! Ok, a Disney sempre adapta versões de histórias para suas perspectivas e assim, atrair o espectador. Isso é um fato. Mas o Conto original não tem absolutamente nada a ver, tanto o desenho de 1992 quanto o sensacional Live Action de 2019.
Segundo, tenha em mente que esse conto árabe foi traduzido pro francês, do francês para o inglês e aí sim para o português. Muitas adaptações podem ter ocorrido, mas essa edição da Zahar busca ser muito fiel à versão original.

Bom, quanto à verdadeira história de Aladim do Conto de “As Mil e Uma Noites”, esta foi na realidade contada verbalmente, e não escrita em si à priori. Por isso que não temos um autor definido. O Editor da #Zahar, Paulo Lemos Horta, deixa bem claro ao dialogar sobre a obra as seguintes questões:

“As narrativas originais de As Mil e Uma Noites […] eram relatos urbanos das intrigas de homens e mulheres.”

“A história compreende, portanto, muito mais do que os filmes que a Disney sugere.”

Isto mostra como o próprio Editor foi muito fiel ao introduzir todo o Conto para o leitor, principalmente aqueles que começam a ler com a expectativa de ser uma narrativa idêntica à da Disney. O que mais uma vez enfatizo, essa edição da Zahar não é uma réplica da história da Disney. Então vamos lá…

O Conto é narrado pela “voz” feminina de Sherazade, uma lendária Rainha Persa que retrata as histórias dos Contos de “As Mil e Uma Noites”. Inclusive, é interessante que se faça uma busca sobre sua persona, tão importante para a literatura árabe quanto qualquer outra, rica em conteúdo, cultura e detalhes – recomendo o Box “As Mil e Uma Noites” para quem se interessar em se aprofundar nesse universo Arabian.

Aladim nesse conto trata-se de um menino que é filho de um alfaiate, um homem que esperava que seu filho seguisse sua profissão (o que era comum), mas o menino era muito malandro e preguiçoso. Quando seu pai faleceu, somente permaneceram ele, a mãe e os irmãos. Além disso, o Conto se passa no que se chama de “China” no livro, que seria uma região realmente próxima da China mas com elementos islâmicos.

A reviravolta do Conto ocorre com a história da Lâmpada. Um feiticeiro instiga Aladim para este ir atrás desse tesouro em uma caverna. E ele foi e ficou preso nela. Encontrou vários desafios, e diferente da Disney, o Gênio, na realidade são criaturas que não são “boas”. Podemos dizer se tratar de um Conto com mais ação, pelo que se foi transpassado, o Conto foi relatado pela Sherazade para que esta ‘enrolasse’ o Sultão. Bom, uma história para outro momento…

No mais, minhas últimas considerações: Sim, eu esperava o típico clássico da Disney. Mas também sim, eu me surpreendi bastante com a riqueza do verdadeiro Conto de Aladim, não apenas com aqueles encantos que a Disney proporciona, mas com todo detalhe cultural e essência de um dos contos de “As Mil e Uma Noites”. Nota 4 porque não superou minhas expectativas, obviamente, mas engrandeceu bastante minha perspectiva sobre Aladim e cultura árabe no geral. 🙂

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Até a próxima resenha! 🧞

Minha Vida na Ponta dos Pés – Parte II

“Eu tinha uma vida que muitos queriam ter e não a escolhi.” – Sarah White

Atenção: Texto para maiores de 18 anos!

Nova York, a maior cidade do meu país, a maior cidade dos Estados Unidos da América. Tão movimentada quanto blasé. Ninguém te olha nos olhos, ninguém percebe que você precisa de ajuda, ninguém vê que a tristeza choca, simplesmente todos só querem olhar o lado lindo que essa cidade possui, e realmente ela é linda vista aqui de baixo… Mas deve ser muito mais bonita vista de lá de cima, do Empire State Building. Eu realmente acreditei que iria o conhecer tão breve, assim que passasse na audição da Escola de Ballet. Mas não. O que estou fazendo aqui com $20?

– Oi, gatinha. Quanto você tá cobrando? – Perguntou um senhor na parte de trás de um carro de luxo, do estilo dos meus pais.
– E…E…Eu? Cobrando o quê? – Indaguei
– Rá. Uma menina tão bonita, bem vestida, somente com uma mochila, sozinha aqui debaixo dessa ponte perambulando… O que acha de entrar no carro e irmos a um bar?

Eu não tinha dinheiro nem para uma refeição do tipo que eu costumava fazer, não tinha como arcar com transporte particular, como eu costumava ter. Na verdade, eu não tinha nem algo para comer ou beber. Só um sanduíche mofado de dois dias… Que me dava náusea. Eu estava com fome, precisando de um banho, e bom, de dinheiro. O que demais teria em trepar com esse velho?

– Aí! Para começo, são $200 o boquete e $500 o serviço completo. E mais, quero ir no melhor hotel da cidade e antes de tudo, tomar um banho bem relaxante numa banheira. É pegar ou largar.
– Entra! – Disse o velhote que eu mal conseguia ver o rosto.

Cheguei no hotel, tomei um banho relaxante e dei pra caralho pra aquele velhote! Com certeza deve ter tomado a ‘azulzinha’… Não é que o velhote meteu 5 vezes na mesma noite? E eu? Saí de lá com $500! E foi aí que começou… A minha saga de Prostituição em NYC… E algumas coisas mais…

Todo dia era um homem diferente, alguns gatos, outros com esposa, alguns só queriam que eu os escutasse (que saco!), mas o pior era os velhotes mesmo. Em uma semana dei para 10 caras diferentes. Calculou aí quanto eu juntei, né? Comprei roupas luxuosas e aluguei um pequeno quarto num hotel. E todo dia eu tomava um belo café da manhã na cafeteria da esquina, e a partir das 10h começava a andar pela rua e sair com os caras que paravam. Percebi que existem ruas em NYC vazias, e essas eram as que eu estava, lá aguardando mais um dinheirinho entrar.

Impressionante como cada foda que eu tinha com homens que nunca havia visto na vida, eu pensava: “Eu tinha a vida que muitos queriam ter e não a escolhi.” Até que eu conheci o John… John Smith. Era um coroa de uns 45 anos, gato pra caralho, tinha um corpo maravilhoso e um cabelo grisalho tão macio. Ele era advogado, não, quero dizer, ele tinha um escritório de advocacia próprio, e me levava para os melhores hotéis da cidade. Bom, começamos a sair todos os dias depois do trabalho dele. Era um saco aquela mulher dele ligando… Mas ele sempre dava uma desculpa que estava em reunião… Homens não são criativos, né? Sugeri a ele que mudasse as desculpas de vez em quando, e ele dizia “Você é esperta, garota!”.

Depois de um mês nas ruas de Nova York, eu já estava há seis meses com o John. Ele alugou um apartamento para mim em frente ao Central Park, todo em vidro. Puta merda, que lugar lindo visto aqui de cima! Ele ainda deixou um espaço com uma barra para eu praticar ballet, ou seja, não estava perdendo a prática e estava treinando bastante para a nova audição que aconteceria em fevereiro… E eu estava super preparada! Não era tão ruim ser acompanhante de luxo… Algumas vezes trepava com outros caras, dinheiro nunca é demais, né? Mas o John tinha muito ciúmes, ele me queria só para ele. Porra, eu era uma puta!

– Me deixa, porra! – Disse para ele um dia que chegou puto porque viu um cara saindo do apartamento.
– Te deixo o caralho, sua puta! Eu não te pago para tu trazer homem pra cá! Eu te pago pra tu ser só minha! – E me agarrou com força rasgando a minha lingerie…

A gente sempre brigava e sempre fazia as pazes. Esse velhote não resistia a mim, quem resistiria? Eu sou a puta bailarina mais linda dessa merda de cidade, e no próximo mês eu vou passar na audição da Escola de Ballet e me livrar disso tudo.

Até que dois dias depois, a maluca da mulher dele apareceu no apartamento…

– Não, não, não, John! Por que? – Perguntou Beatriz, a vaca da mulher dele. Ela descobriu e pegou a gente no flagra!
– Não, Triz, não é isso que você tá pensando! Abaixa essa arma!
– “Não é o que estou pensando? Eu estou vendo! Você acha que eu sou burra?” – Respondeu a maluca tremendo com aquela arma na mão.

Quando eu vi que ela não ia atirar, eu fiquei esperando o momento certo para tirar a arma daquela boçal. Mas a arma disparou… No John, com as minhas mãos. E ela não aguentou e se matou… Mano, ainda bem que eu deixava as minhas coisas sempre arrumadas. Meti o pé dali em cinco minutos e peguei um táxi para o mais longe que pudesse avistando a polícia chegando. John… Foi tão bom para mim… Até caiu uma lágrima do meu olho no táxi. Mas logo falei para o motorista “Vamos para o Greenwich Hotel, por favor!” Precisava me distanciar do Central Park. Mas eu sou muito foda, nada estava no meu nome e ninguém nunca me via… Para todos os efeitos, eu era só uma hóspede indo embora.

Cheguei no Greenwich Hotel, um pouco afastado da cidade… Naquele dia eu chorei até dormir. Por um momento eu pensei… “Eu matei uma pessoa!”… E dormi, dormi, dormi… Por dois dias seguidos. Até que acordei e voltei a treinar para minha audição, foquei nisso, e consegui esquecer um pouco essa loucura toda.

#Dia da Audição

– Sarah White, favor se apresentar! – O avaliador me chamou…

Dancei “Clair de Lune” de Claude Debussy… E vi aplausos de pé de todos os jurados! Foi um dos melhores momentos da minha vida…

~ Dicas de Livros para ler em um dia! ~

Meus Livrinhos

Olá, pessoal! Como vão?

Ainda estamos no inverno no nosso Querido País, e em quarentena. Bom, acredito que a maioria.
Então, já se perguntaram em algum domingo ou qualquer outro dia, daqueles frios, chuvosos, um pouco solitários… “O que vou fazer hoje?” 

Pois bem… Que tal passar uma leve tarde lendo um livro inteiro? Isso mesmo! Um livro todo! E é possível! 🙂

Olhando para minha estante, selecionei cinco livros nos quais vocês poderiam se inspirar e ler em 24 horas ou menos. Dos mais diversos gêneros. (Muitos eu li em Kindle e pretendo resenhar em breve, ok?!) 

Vamos então aos livros? Sem spoilers e nem sinopse. Quero deixar vocês curiosos para pesquisarem e entrarem no universo de cada um! Hehe 

Lista:

Coraline – Neil Gaiman: É um terrorzinho de menos de 200 páginas e super leve, trata-se de uma garota que cansada da falta de atenção de seus pais, decide explorar e acaba por descobrir muitos mistérios.
O Papel de Parede Amarelo – Charlotte Perkins Gilman: Trata-se de um Conto da Literatura Americana Feminista. É muito interessante pois retrata a saúde mental da mulher do século XIX.
Aladim – As Mil e uma Noites: Enaltecendo essa edição lindíssima da @editorazahar. São 144 páginas apenas desse Conto Clássico adaptado de As Mil e Uma Noites. A história? Quem não conhece, né?
A Metamorfose – Franz Kafka: Uma novela escrita em 20 dias! Isso mesmo! Kafka, né mores? Retrata um homem que foi metamorfoseado num inseto monstruoso e narra as angústias de Gregor Samsa e questões de sua família.
O Pequeno Príncipe – Antoine de Saint-Exupéry: Livro infantil? Não somente! Com tantas reflexões, traz ensinamentos de amor, resiliência, perseverança, dentre outros. Clássico que pode ser lido em poucas horas.


E você? Já leu algum desses livros? Me diz o que achou! Se ainda não leu, tem vontade de ler algum? E o que acha de iniciar e finalizar um livro em um dia? Me conta aí! Deixe seu comentário!

Até a próxima!

Beijos,

Carla Magalhães 🤍

Resenha #3 – O Pequeno Príncipe

LIVRO: O Pequeno Príncipe
AUTOR: Antoine de Saint-Exupéry
EDITORA: Harper Collins
FORMATO: Físico
NOTA: ★★★★★

Foto autoral – O Pequeno Príncipe

Se tem um livro que não posso deixar de opinar no Escritas & Tal, esse livro se chama “O Pequeno Príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, o famoso “Le Petit Prince”, tão clichê quanto necessário de se ler. A minha paixão por livros não iniciou na infância e sim no fim da adolescência, já quase adulta (na infância somente a escrita, pois a imaginação era fértil mas a concentração não – risos), por isso não conhecia “O Pequeno Príncipe” desde sempre. Mas foi em 2012, numa viagem para Paris, França, que saindo de algum dos belíssimos museus que lá tive o privilégio de visitar, olhei para essa caneta da foto e esse Princepezinho me encantou! Vi na loja de souvenir escrito “Le Petit Prince”, e pensei “Ah, que fofinho, vou levar!”… Nem imaginava que aquela caneta seria o ponto de partida para conhecer uma história de tamanha grandeza, uma vez que naquele mesmo ano, na Bienal do Livro, eu finalmente tive esse livro incrível em mãos. E meu xodó, reparem no exemplar de “Mini Livro” que tenho também. Fofíssimo!

Bom, vamos ao que interessa… Releituras são importantíssimas. Fiz esta recentemente para trazer minha perspectiva do livro para vocês e espero fazer mais releituras desse livro quando estiver mais velha, nossa visão sempre muda com a maturidade. Não sou mais a mesma Carla de 20 anos, e estou em constante busca de uma melhor versão de mim, e assim, até o último dia da minha vida, que espero que demore muuuito para chegar! 🙂

O Pequeno Príncipe. Um livro de criança sim, um livro de adulto também. Um livro para todas as idades, para todas nossas fases, para lembrarmos dos nossos princípios e valores, nossas virtudes e defeitos e especialmente, lembrarmos que sacrifícios são necessários, que nem sempre a “grama do vizinho é mais verde” e que não devemos esperar perder algo ou alguém para darmos seu devido valor. Um livro essencial na aprendizagem, na busca por maturidade e sim, daqueles livros que todos nós devemos ter na nossa estante.

Apesar de ser curto, rápido e objetivo, no qual eu gostaria de desmembrar várias passagens, eu vou focar no capítulo mais importante e conhecido, no sentido de ter mais peso do saber, é indispensável que seja retratado com bastante delicadeza e notabilidade, típico da literatura francesa que nos encanta desde sua origem.

Vamos diretamente ao capítulo XXI, a renomada parte do Príncipe com a Raposa, e da sua reflexão de como deveria cuidar de sua flor, àquela que habitava seu Planeta…

– Que quer dizer “cativar”?
– É algo quase sempre esquecido – disse a raposa. – Significa “criar laços”…
– Criar laços?
– Exatamente – disse a raposa. – Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu também não tens necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

E no final do capítulo, após tornarem-se amigos, a raposa revela um segredo ao principezinho, que percebeu que cativar é amar, e que ele amava a sua rosa…

– Adeus… – disse ele.
– Adeus – disse a raposa. – Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos. […] Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu é responsável pela tua rosa…

A grandeza de ensinamento que essa passagem nos passa é como a raposa disse, simples. Mas muitas vezes não enxergamos pelo tolo fato de não nos deixarmos ver a vida com o coração. A vida, a natureza, a família, os amigos… O nosso próprio Planeta!… Se nos empenharmos nessa filosofia, vemos que a simplicidade começa com as aquarelas representadas pelo próprio autor, que não era nenhum artista profissional, mas conseguiu, a partir de desenhos singelos, expressar que não é preciso muito para termos o que mais importa em nossas vidas. Paz de espírito, amor (próprio e ao próximo), respeito e princípios.

Por fim, gostaria de indicar uma pesquisa para vocês, caros leitores… Sim, trabalho de casa! – risos… Que tal ver a biografia de Antoine de Saint-Exupéry? Um pouco de #spoiler… Esse livro faz tanta referência ao amor que tivera mas não sabia dar valor, assim como o principezinho com sua rosa. Ainda, às experiências como realmente piloto que foi, pois sim, ele sobreviveu à uma queda de avião. E quem seria então a representação do querido O Pequeno Príncipe? Sim, Saint-Exupéry. Que precisou sair do seu “planeta” para voltar e saber o que é “cativar” a sua “rosa”.

Deixo o final da reflexão com vocês! Mas com uma ressalva… Vamos enxergar mais com o coração do que com os olhos e mais como crianças do que como adultos?

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Até a próxima resenha!

A Linda Flor

Ayana – Nome de origem da língua amárica da Etiópia. 🌻

Hoje estava voltando da escola e duas garotas cochicharam: “Esse cabelo de bombril é muito feio!”. Pois é, eu estudava em um dos colégios mais populares da Cidade de Kimberley. Não tínhamos muita condição financeira, mas meus pais, guerreiros que eram, conseguiram uma bolsa para mim na maior escola da cidade depois que ele encontrou uma pedra bonita e um homem rico comprou. Meu pai trabalha nas Minas e minha mãe se dedica a cuidar de mim e dos meus dois irmãos. Enfim, cheguei em casa chorando e minha mãe já sabia o porquê…

– Ayana, de novo chorando? Falaram do seu cabelo, né, minha linda pretinha? – Perguntou minha mãe docemente
– Sim, mama! Elas sempre ficam zoando meu cabelo! Por quê não podem respeitar só por causa dele ser cheio? – Questionei aos prantos
– Pois seu cabelo crespo é sua identidade, é sua singularidade, é sua ancestralidade e duas meninas bobas do Ensino Médio não vão entender pois não vivem nossa realidade. A não ser que elas queiram mudar seus conceitos…

Minha mãe, Nuala, sempre com sábias palavras! Ela me consolou até eu cair no sono. Mas estou tão cansada desse preconceito, é todo dia a mesma história. Eu tenho 15 anos e nunca beijei na boca. Os garotos não olham para mim, a não ser de um modo desrespeitoso… Me sinto inferior, sabe?

– Vem, Ayana! Hoje tem jogo de futebol e os meninos mais gatos vão jogar! – Disse minha melhor amiga, Ayla

Não gostava muito de ficar para os eventos da escola, sempre me sentia deslocada, sei lá, mas como estava com tempo livre, fui assistir o jogo com ela.

Ayla era preta como eu, mas ela era brigona. Sempre me defendia quando as meninas me zoavam. Eu não sei porque me deixo afetar por aquelas duas garotas. Elas zoam a Ayla também, mas debochada do jeito que é, ela só respondia às provocações sem papas na língua.

– Ayla e Ayana têm cabelo ‘ruim’! – Gritaram na frente de todo mundo
– E vocês que querem fazer cachinhos e não conseguem com esse cabelo liso? – Respondeu Ayla

Foi até engraçado, àquelas meninas calaram a boca na hora! Queria ter essa audácia da Ayla… Parece ser muitas vezes necessária já que só assim todo mundo para de rir da gente.

– Ayla, vamos embora! Deixa elas… – Eu disse
– Deixa elas nada, Ayana! Elas têm que aprender a respeitar a diversidade. – Respondeu Ayla

Voltei para casa com as palavras da minha mãe e da Ayla, refleti e percebi que o único problema que tinha que resolver estava comigo, simplesmente eu tinha que me aceitar! E no caminho eu encontrei uma flor, uma linda flor, que lembrou o significado do meu nome. Sim, Ayana significa “Linda Flor” e é o que meus cachos são, lindas flores enfeitando a beleza única que eu tenho. Minha beleza preta, minha alma preta, minha cor preta.

Crônica em homenagem à todas belas mulheres pretas que têm orgulho do seu cabelo crespo e lutam contra todo tipo de preconceito, racismo e machismo ainda existente na nossa sociedade atual. Minha total admiração e respeito!
Essa história é para vocês, é para nós! ❤

Minha Vida na Ponta dos Pés – Parte I

– Obrigada, Sarah! Pode se retirar! – Disse o avaliador.

Fui ver minha classificação ao final da audição e… Eu fui desclassificada! Como assim eu fui desclassificada?

Atenção: Texto para maiores de 18 anos!

Aquele dia… Nunca vou esquecer. Deve ter quase dez anos, minha avó não estava na minha apresentação anual de ballet da escola. Ela não estava pois foi o dia que ela morreu e ah, ela era a única pessoa que me entendia e me ouvia. Minha avó, filha dos meus bisavós paternos, aqueles que comentei que praticamente construíram Great Falls, se chamava Elyse. Ela foi a pessoa mais doce e genuína que conheci…

Eu passei aquele ano inteiro conversando com ela sobre uma menina chamada Jasmine. Eu e a Jasmine éramos as melhores bailarinas de Great Falls Elementary School, mas havia uma grande diferença entre nós, ela tinha amigos, eu não. E por isso, ela e toda a escola me tratavam como se eu fosse um ser de outro mundo, pelo simples fato de que eu era a garota mais rica da cidade.

– Hey, Patricinha! Sabe por que ninguém gosta de você? – Perguntou aquele idiota do Phil.

Phil e seu quarteto fantástico… Aqueles quatro garotos de onze anos não sabiam o mal que provocaram em uma garotinha de apenas nove anos. Phil, Ramon, Jean e Chevy. Os últimos três nada mais eram que capachos de Phil, que maltratava todo mundo porque seu pai construiu a Usina mais inovadora da cidade.

– Me deixa, Phil! – Respondi educadamente.

– É porque você é a Sarah Hill e não a Sarah White, sua estranha! – Gritou Phil quando percebeu que saí correndo deixando minha sapatilha e roupas de ballet caírem no chão.

Eles me chamavam de “Sarah Hill” porque eu vivia em uma grande casa nas montanhas, e diziam que era a Casa Mal Assombrada só porque era velha. Ainda bem que meus pais a reformaram alguns anos depois, pelo menos deixei de ser a “Sarah Hill“, até porque, a partir daquele dia eu disse para mim que nunca mais abaixaria a minha cabeça para ninguém.

Após a morte da minha avó Elyse, eu fiquei só. Eu tinha a Beth em casa, ela cuidou de mim como babá até meus dez anos, e minha mãe, por trabalhar muito fora com meu pai, pediu que ela ficasse e ajudasse na casa. Mas ela não era a minha avó, ninguém era. Além disso, querem saber mais? Eu não era assim, mas foi assim que a vida me tornou… Assim.

#Cinco anos depois…

Era verão em Montana, daqueles que a gente tinha que rezar para o Sol aparecer, típico desse estado. Mas eu tinha certeza que a semana seria esplêndida! Faltava apenas dois dias para eu completar 15 anos! Ah, eu tava tão animada para a minha festa! Seria a primeira que eu faria, mas lógico, só para os populares de Great Falls, né? Aqueles nerds feios e esquisitos não! Até porque, eu estava prestes a ir para o High School e como sou A Sarah White, entraria o ano com ‘chave de ouro’. Eu sabia quem eu era! Além de ser a melhor bailarina de Montana, era a garota mais bonita da escola e ainda namorava o garoto mais gato de todos!

– Oi, Phil! Bom te ver… – Disse aquela piranha da Jasmine tentando seduzir o meu namorado no último dia de aula!

Sim, muitos anos se passaram e coitada, ela não aguenta estar sempre em segundo lugar… Quem tira as melhores notas? Sarah! Quem é a mais rica e bonita? Sarah! Quem tem o namorado mais gato? Sarah! E mais, quem é a melhor bailarina de ballet? Sarah White!!! No caso, eu, claro! E essa garota desde sempre foi um “calo na minha sapatilha”. Normal para uma bailarina, né? Eu sabia tratar ela direitinho… Como ela merecia! A Jasmine simplesmente não aceitava o Phil ter me escolhido e continuava dando em cima dele na cara de pau! Não aguentei…

– Ei, garota! Você não se toca não? – Perguntei
– Se tocar de quê, “Sarah Hill”?! Que você só tem tudo que quer por causa dos seus papais ricos? Se toca você que acha que as pessoas são legais porque você acha que é legal! Você é ridícula! – Disse Jasmine com deboche
– “Sarah Hill”? Parou no tempo, garota? Ninguém me chama assim há anos! E vamos ver se eu não sou mesmo legal…

Subi no degrau mais alto da escada da porta da escola e perguntei para todo mundo gritando:
– “Ô galera, quem aí vai na festa da garota mais legal da escola?”
E todo mundo respondeu junto – “Eu vou na festa da Sarah White!”

– Viu, sua trouxa? Se manca! Todos sabem que a garota mais legal sou eu! – Respondi àquela ridícula que, “oh, tadinha!”, saiu correndo chorando enquanto todo mundo batia palmas para mim e o Phil me beijava. Rimos muito.

Naquele dia, cheguei em casa e perguntei para a Beth se estava tudo pronto e ela disse que só faltava o bolo. Eu disse para ela agilizar pois queria tudo perfeito! E fui correndo para o meu quarto… Eu confesso que estava um pouco preocupada. Tinha prometido para o Phil que transaríamos na minha festa. Tá, eu tava com medo… Tinha visto uns vídeos na internet ‘de como fazer’ mas eu nunca fiz nada além de deixar ele me tocar às vezes. Mas enfim, eu só pensava em como eu estaria deslumbrante no meu vestido de diamante…

E finalmente chegou meu dia. O dia da Festa de Sarah White! Estava tudo lindo, a minha casa tinha sido reformada há menos de dois anos e tudo era tão novinho. A decoração estava do jeito que eu queria, com muito brilho e glamour, e o meu vestido era o mais lindo de todas as garotas, inclusive mais bonito que o da vaca da Jasmine que lógico, quis me copiar e entrou de penetra! Mas eu tava nem aí, deixei ela ver eu ser a estrela da noite, do dia, e de toda Great Falls. Veio todo mundo da escola, e nós dançamos muito. A Beth não deixou ter bebida alcoólica mas lógico que eu dei meu jeito, né? Inclusive muito baseado pra todo mundo ficar doidão! E não deu outra! Estava tudo perfeito até que…

– Para, Phil! Eu não quero! Não consigo! Para!
– Fala sério, Sarah, você me prometeu e nós vamos transar! – Disse o Phil rasgando o meu vestido

E essa foi a realidade da minha primeira e única festa. O meu próprio namorado me estuprou, no dia do meu aniversário de 15 anos, quando eu disse diversas vezes que eu não queria e nem estava pronta. E depois, ele saiu do quarto mostrando a minha calcinha com duas gotas de sangue e todos riram de mim. Todos! A minha festa se tornou um pesadelo, e eu nunca mais falei com o Phil e nem olhei na cara dele… Nunca contei para os meus pais. Só a Beth sabia, pois eles não estavam em casa. Ela me viu chorando no quarto depois que todos foram embora, mas eu não a quis por perto…

Álcool. Drogas. Bulimia. Brigas. E muita foda com ‘rock and roll’… Eu ficava chapada a maior parte do tempo. Minhas notas davam para passar e meus pais não falavam comigo, a não ser para brigar, óbvio. Assim foram meus três últimos anos naquela cidade bosta. E aqueles babacas de Great Falls High School continuaram falando comigo, mas eu tratava bem só quem eu queria e quando eu queria. Odiei aqueles anos, tanto que nem fiquei para aquela maldita formatura! Mas no último ano eu pude focar para a audição da Escola de Ballet de Nova York, na qual hoje aqui estou… Desclassificada, perdida, sem onde ficar, e com dinheiro para uma semana. Acho que só dá para comer. Eu achei que fosse passar e a bolsa iria me sustentar! Porra! Eu tô fodida mesmo…

O que será de mim a partir de agora nessa cidade grande?


Resenha #2 – A Cor Púrpura

LIVRO: A Cor Púrpura
AUTOR: Alice Walker
EDITORA: José Olympio
FORMATO: Físico
NOTA: ★★★★

A Cor Púrpura – Alice Walker

“As pessoas acham que agradar a Deus é tudo que interessa a ele. Mas qualquer idiota no mundo pode ver que ele sempre tá é tentando agradar a gente de volta.”

A Cor Púrpura de Alice Walker é um romance essencial da literatura afro norte-americana. É um livro pesado e pode-se dizer que doloroso de ler. Sim, estou dizendo que você pode ficar abalado (a), então aconselho que caso sinta que possa ser um gatilho, não leia se não estiver bem. Primeiro ponto.

Segundo ponto. O livro é retratado por cartas, inicialmente enviadas a Deus, pela protagonista Celie, que sofreu todos os tipos de abuso que você possa imaginar. Sexual, verbal, psicológico e muitas humilhações. Ela era simples, mas uma mulher muito submissa, sofrida e até mesmo descrente de força e fé. Nas cartas podemos perceber sua falta de estudo, pois escreve muito errado, tem pouca cultura e é desvalorizada por isso. Então, ela escreve cartas a Deus pois o que ela sente é que a única coisa que pode fazer é orar e confiar nEle.

Há três pontos interessantes nesse livro: a união do sexo feminino que tanto lutamos ainda hoje para persistir; a luta contra o racismo e a favor de direitos igualitários; e por último mas não menos importante, a linguagem religiosa e divina, que nos mostra a importância da fé.

Voltando ao livro. Há um momento que é um divisor de águas. Aquela Celie submissa, na qual abre mão de qualquer liberdade, até mesmo para proteger sua irmã mais nova, Nettie e depois de muito ser humilhada pelo pai que abusa dela, e ser forçada a casar com um homem que queria na realidade casar com sua irmã “por ser mais bonita e inteligente”, ela demonstra a maior prova de compaixão que um ser humano pode ter. Celie conhece e cuida da amante do seu marido, Shug Avery, uma mulher à frente do seu tempo. Amante essa que na verdade foi um presente para aquela caipira preta que precisava tanto de uma guia, e foi justamente sua dita “rival” que mostrou à ela como se amar, se respeitar e se valorizar.

Após muitos acontecimentos, desde a sua adolescência até sua meia-idade, como ter tido filhos (frutos dos estupros constantes que sofria), ter se casado para ser uma empregada e não uma esposa, e ter se relacionado com Shug, Celie teve a oportunidade de se descobrir, no sentido de ter florescido. Ela aprende que o universo feminino não é aceitar ser abusada por um homem, ou aceitar que uma esposa deva ser espancada pelo simples fato de ser mulher. A reviravolta é grande no livro, visto que a protagonista encontra com quem pode se espelhar e se tornar quem realmente deve ser, uma mulher valorizada e respeitada, que se impõe e sabe do seu valor.

Concluindo, por que indico a leitura e por que quatro estrelas? Cinco estrelas não pois em muitas partes, o livro é cansativo, apesar de ser uma leitura rápida. Mas o que vale aqui é que indico-o porque esse livro contribuiu muito para o empoderamento dos pretos norte-americanos, especialmente das mulheres pretas em um país onde os brancos dominavam e ainda dominam, não em população, mas por todo contexto histórico desde o fim da escravidão. Então, é um livro para você que quer se aprofundar na luta contra o racismo e saber um pouco mais da luta pelos direitos afros, e refletir que em 2020, como infelizmente presenciamos recentemente, o racismo ainda existe, vidas negras importam e precisamos lutar contra esse preconceito e todos os demais tipos de repúdio e desvalorização.

Caso tenha se interessado em ler este livro, indico essa edição da Editora José Olympio, com uma ótima tradução. E você pode comprar no site da Amazon pelo link abaixo.

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Até a próxima resenha! 💜