Minha Vida na Ponta dos Pés – Parte I

– Obrigada, Sarah! Pode se retirar! – Disse o avaliador.

Fui ver minha classificação ao final da audição e… Eu fui desclassificada! Como assim eu fui desclassificada?

Atenção: Texto para maiores de 18 anos!

Aquele dia… Nunca vou esquecer. Deve ter quase dez anos, minha avó não estava na minha apresentação anual de ballet da escola. Ela não estava pois foi o dia que ela morreu e ah, ela era a única pessoa que me entendia e me ouvia. Minha avó, filha dos meus bisavós paternos, aqueles que comentei que praticamente construíram Great Falls, se chamava Elyse. Ela foi a pessoa mais doce e genuína que conheci…

Eu passei aquele ano inteiro conversando com ela sobre uma menina chamada Jasmine. Eu e a Jasmine éramos as melhores bailarinas de Great Falls Elementary School, mas havia uma grande diferença entre nós, ela tinha amigos, eu não. E por isso, ela e toda a escola me tratavam como se eu fosse um ser de outro mundo, pelo simples fato de que eu era a garota mais rica da cidade.

– Hey, Patricinha! Sabe por que ninguém gosta de você? – Perguntou aquele idiota do Phil.

Phil e seu quarteto fantástico… Aqueles quatro garotos de onze anos não sabiam o mal que provocaram em uma garotinha de apenas nove anos. Phil, Ramon, Jean e Chevy. Os últimos três nada mais eram que capachos de Phil, que maltratava todo mundo porque seu pai construiu a Usina mais inovadora da cidade.

– Me deixa, Phil! – Respondi educadamente.

– É porque você é a Sarah Hill e não a Sarah White, sua estranha! – Gritou Phil quando percebeu que saí correndo deixando minha sapatilha e roupas de ballet caírem no chão.

Eles me chamavam de “Sarah Hill” porque eu vivia em uma grande casa nas montanhas, e diziam que era a Casa Mal Assombrada só porque era velha. Ainda bem que meus pais a reformaram alguns anos depois, pelo menos deixei de ser a “Sarah Hill“, até porque, a partir daquele dia eu disse para mim que nunca mais abaixaria a minha cabeça para ninguém.

Após a morte da minha avó Elyse, eu fiquei só. Eu tinha a Beth em casa, ela cuidou de mim como babá até meus dez anos, e minha mãe, por trabalhar muito fora com meu pai, pediu que ela ficasse e ajudasse na casa. Mas ela não era a minha avó, ninguém era. Além disso, querem saber mais? Eu não era assim, mas foi assim que a vida me tornou… Assim.

#Cinco anos depois…

Era verão em Montana, daqueles que a gente tinha que rezar para o Sol aparecer, típico desse estado. Mas eu tinha certeza que a semana seria esplêndida! Faltava apenas dois dias para eu completar 15 anos! Ah, eu tava tão animada para a minha festa! Seria a primeira que eu faria, mas lógico, só para os populares de Great Falls, né? Aqueles nerds feios e esquisitos não! Até porque, eu estava prestes a ir para o High School e como sou A Sarah White, entraria o ano com ‘chave de ouro’. Eu sabia quem eu era! Além de ser a melhor bailarina de Montana, era a garota mais bonita da escola e ainda namorava o garoto mais gato de todos!

– Oi, Phil! Bom te ver… – Disse aquela piranha da Jasmine tentando seduzir o meu namorado no último dia de aula!

Sim, muitos anos se passaram e coitada, ela não aguenta estar sempre em segundo lugar… Quem tira as melhores notas? Sarah! Quem é a mais rica e bonita? Sarah! Quem tem o namorado mais gato? Sarah! E mais, quem é a melhor bailarina de ballet? Sarah White!!! No caso, eu, claro! E essa garota desde sempre foi um “calo na minha sapatilha”. Normal para uma bailarina, né? Eu sabia tratar ela direitinho… Como ela merecia! A Jasmine simplesmente não aceitava o Phil ter me escolhido e continuava dando em cima dele na cara de pau! Não aguentei…

– Ei, garota! Você não se toca não? – Perguntei
– Se tocar de quê, “Sarah Hill”?! Que você só tem tudo que quer por causa dos seus papais ricos? Se toca você que acha que as pessoas são legais porque você acha que é legal! Você é ridícula! – Disse Jasmine com deboche
– “Sarah Hill”? Parou no tempo, garota? Ninguém me chama assim há anos! E vamos ver se eu não sou mesmo legal…

Subi no degrau mais alto da escada da porta da escola e perguntei para todo mundo gritando:
– “Ô galera, quem aí vai na festa da garota mais legal da escola?”
E todo mundo respondeu junto – “Eu vou na festa da Sarah White!”

– Viu, sua trouxa? Se manca! Todos sabem que a garota mais legal sou eu! – Respondi àquela ridícula que, “oh, tadinha!”, saiu correndo chorando enquanto todo mundo batia palmas para mim e o Phil me beijava. Rimos muito.

Naquele dia, cheguei em casa e perguntei para a Beth se estava tudo pronto e ela disse que só faltava o bolo. Eu disse para ela agilizar pois queria tudo perfeito! E fui correndo para o meu quarto… Eu confesso que estava um pouco preocupada. Tinha prometido para o Phil que transaríamos na minha festa. Tá, eu tava com medo… Tinha visto uns vídeos na internet ‘de como fazer’ mas eu nunca fiz nada além de deixar ele me tocar às vezes. Mas enfim, eu só pensava em como eu estaria deslumbrante no meu vestido de diamante…

E finalmente chegou meu dia. O dia da Festa de Sarah White! Estava tudo lindo, a minha casa tinha sido reformada há menos de dois anos e tudo era tão novinho. A decoração estava do jeito que eu queria, com muito brilho e glamour, e o meu vestido era o mais lindo de todas as garotas, inclusive mais bonito que o da vaca da Jasmine que lógico, quis me copiar e entrou de penetra! Mas eu tava nem aí, deixei ela ver eu ser a estrela da noite, do dia, e de toda Great Falls. Veio todo mundo da escola, e nós dançamos muito. A Beth não deixou ter bebida alcoólica mas lógico que eu dei meu jeito, né? Inclusive muito baseado pra todo mundo ficar doidão! E não deu outra! Estava tudo perfeito até que…

– Para, Phil! Eu não quero! Não consigo! Para!
– Fala sério, Sarah, você me prometeu e nós vamos transar! – Disse o Phil rasgando o meu vestido

E essa foi a realidade da minha primeira e única festa. O meu próprio namorado me estuprou, no dia do meu aniversário de 15 anos, quando eu disse diversas vezes que eu não queria e nem estava pronta. E depois, ele saiu do quarto mostrando a minha calcinha com duas gotas de sangue e todos riram de mim. Todos! A minha festa se tornou um pesadelo, e eu nunca mais falei com o Phil e nem olhei na cara dele… Nunca contei para os meus pais. Só a Beth sabia, pois eles não estavam em casa. Ela me viu chorando no quarto depois que todos foram embora, mas eu não a quis por perto…

Álcool. Drogas. Bulimia. Brigas. E muita foda com ‘rock and roll’… Eu ficava chapada a maior parte do tempo. Minhas notas davam para passar e meus pais não falavam comigo, a não ser para brigar, óbvio. Assim foram meus três últimos anos naquela cidade bosta. E aqueles babacas de Great Falls High School continuaram falando comigo, mas eu tratava bem só quem eu queria e quando eu queria. Odiei aqueles anos, tanto que nem fiquei para aquela maldita formatura! Mas no último ano eu pude focar para a audição da Escola de Ballet de Nova York, na qual hoje aqui estou… Desclassificada, perdida, sem onde ficar, e com dinheiro para uma semana. Acho que só dá para comer. Eu achei que fosse passar e a bolsa iria me sustentar! Porra! Eu tô fodida mesmo…

O que será de mim a partir de agora nessa cidade grande?


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