Minha Vida na Ponta dos Pés – Parte IV

“Dessa vez eu tinha caído de verdade… E não tinha sido em um palco no Ballet. Eu estava na prisão!”

Atenção: Texto para maiores de 18 anos!

Eu estava deitada numa das camas estilo beliche da cadeia, olhando para aquele teto sujo e rabiscado, e pensando apenas em uma coisa: abismo. Sim, eu queria encontrar um abismo e me jogar dele. Eu estava na prisão havia apenas 5 dias mas já parecia que fazia 5 anos. Estava fazendo o que jamais eu pensei que fosse fazer algum dia na minha vida, abaixando a minha cabeça para todos à minha volta. E eu precisei cair, ir ao fundo do poço, ser descoberta e humilhada em público, para assim, perceber que o que eu mais preciso é buscar incessantemente uma melhor versão de mim.

– Sarah, Sarah! Cadê você, minha filhinha? – Podia escutar a voz do meu pai da cela.
– Senhor, o senhor não pode entrar aí! – Respondeu uma policial.
– Senhora, é minha única filha! Preciso vê-la, saber o que aconteceu! – Implorou meu pai.
– Querido, vamos conversar com o detetive, e vamos tirá-la daqui. Calma! – Pude escutar a voz da minha mãe também.

Neste momento percebi como a voz da minha mãe era doce e como meu pai estava ofegante pois me amava. E todos esses anos, eu os julgava por não estarem ao meu lado, mas na verdade eles sempre estiveram, eles faziam de tudo por mim. Que ingrata eu fui… Mas eu sabia que eles iriam me tirar desse lugar e eu ia abraçá-los com todo amor do mundo, eu ia me desculpar, ia recompensar todos esses anos de crueldade. Sim, eu fui cruel com meus pais, com a Beth, com meus amigos e conhecidos que foram bons para mim. Eu precisava mudar. Eu vou mudar!

– Sim, Senhor Morgan. Mas o que de fato aconteceu? – Perguntou meu pai ao detetive.
– Senhor White, a sua filha está sendo acusada de duplo homicídio. Ela tinha um caso com John Smith, um empresário bem famoso daqui de Manhattan. Ele e sua esposa Beatriz viviam no subúrbio, mas ele mantinha um apartamento para sua filha há um ano atrás, que foi quando as mortes aconteceram.
– Mas o que a minha filha disse? Eu tenho certeza que ela não matou ninguém! – Disse meu pai chorando.
– Senhor White, a Sarah disse que a Sra. Smith chegou no local e os viu juntos. Ela viu a arma e como a Sra. Smith estava muito nervosa, ela tentou tirar da mão da esposa do Sr Smith, o que ocasionou o disparo da arma diretamente no peito dele. Além do mais, disse Sarah que ao ver seu marido caído, a Sra. Smith não resistiu e se matou.
– Então foi legítima defesa, Senhor Morgan! – Refutou meu pai.
– Senhor White, concordo. Mas a Sarah fugiu. Isso faz dela uma suspeita. Uma antiga colega dela, chamada Jasmine, estava no café em frente ao prédio e a viu saindo naquela noite, assim como as câmeras do Loft também registraram sua fuga. Isso complica demais a situação dela. – Respondeu o detetive.

Como pude ter sido tão tola, fútil e insensível? O que aconteceu comigo? Eu era a “menina doce da vovó” e olha no que me transformei. Nos meus maiores medos de infância. Eu me transformei em tudo que não gostaria em uma pessoa: ingrata, sem valores, perdida e vestindo um macacão laranja horroroso que me lembrava toda hora que dessa vez eu tinha caído de verdade… E não tinha sido em um palco no Ballet. Eu estava na prisão!

– Tudo bem, Senhor White. Então ela não irá a julgamento. Mas precisa retornar à Montana e cumprir trabalhos comunitários. Ela será réu primário de qualquer maneira, pois ela fugiu enquanto poderia ajudar em uma investigação. Mas conversei com os peritos e realmente há marcas de digitais da Sra Smith no revólver. E no apartamento achamos câmeras, pudemos ver, ela estava falando a verdade, ela não teve intenção de matá-los. Isso salvou sua filha, Senhor White! – Explicou o detetive.
– Muito obrigada, Sr Morgan! Muito obrigada! – Meus pais agradeceram chorando.

Quem diria que agora eu estaria aqui… Retornando para Montana graças aos meus pais que eu tanto reneguei e que deram tudo para me tirar da encrenca que me meti. Estou sem nada. Sem minhas roupas, minhas jóias, sem minha reputação. Estou olhando as nuvens pela janela do avião, e do outro lado vejo meus pais, aqueles que eu podia sempre ter contado e me recusei por pura imaturidade. Precisei querer me jogar em um abismo, precisei chegar ao fundo do poço, ser humilhada, para perceber quem eu realmente quero me tornar: sensível, verdadeira, humilde, íntegra, cordial e empata. Eu sei que parece estranho, ou talvez até hipócrita, uma pessoa tão baixa como eu fui todos esses anos, mas sim, eu quero mudar e vou começar do zero em Montana, de baixo, mas do zero e voar, dessa vez, com asas de anjo…

Já conseguia ver a bela paisagem de Montana daqui de cima… E aspirar todas as mudanças que quero começar em mim. Será que vou conseguir me tornar uma pessoa melhor em Great Falls?

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